terça-feira, 18 de setembro de 2007

TALENTO ALAGOANO

BELEZA DELICADEZA - Wilma Araújo marwilma@uol.com.br
No excelente CD de Wilma, além da arte gráfica, dos arranjos, dos músicos do mais alto nivel dirigidos pelo maestro Almir Medeiros, há mais um ponto a ser destacado: o repertório. A proposta de Wilma em abrir espaço para compositores alagoanos é relevante e de fundamental importância, pois, além de serem valorizados e reconhecidos, êles têm a satisfação de ouvirem as suas composições por uma das mais afinadas vozes de nosso quadro musical. Basta observar que, das treze músicas que compõem o CD, nove são alagoanas! parabéns Wilma! 

DAMA DA NOITE - Leureny barbosa
Sob os cuidados do talentoso Felix Baygon capitaneando uma equipe de músicos alagoanos de primeira linha, o CD Dama da Noite torna-se indispensável para aqueles que valorizam a boa música. A diva "Leu", dá um toque pessoal em duas páginas bastante conhecidas - Favela e Tango de Nancy, dando-lhes uma interpretação definitiva. Duas outras observações necessárias: a inclusão de sete músicas de compositores alagoanos e participação dos ilustres convidados: Duofel, Carlos Bala, João Lyra, alagoanos que brilham no eixo Rio - São Paulo, além de Leila Pinheiro e Cristovão Bastos. "Leu", o bom gosto, os compositores alagoanos e os amantes da boa música agradecem.

VENTOS DO NORDESTE - Eliezer Settn eliezersetton@yahoo.com
Com longo tempo de estrada e público cativado por toda Maceió, o cantor e compositor Eliezer Setton, no seu "Ventos do Nordeste"- terceiro CD - viaja por harmonias bem elaboradas, que previlegiam só ritmos nordestinos, recheados por letras de profundo lirismo. 

DE BRASÍLIA AO NORDESTE - VIAJANDO NO FORRO - Geraldo Rebêlo 
geraldo_erico@uol.com.br
Certas pessoas vivem os desafios da vida sem perder a sensibilidade e principalmente a capacidade de observar o que acontece ao seu redor. Registrar as imagens do cotidiano com olhar de lince, assim é Geraldo Rebêlo, nascido no Cambona, integrante do Exército Brasileiro e um grande compositor, um dos meus parceiros prediletos. Tendo que exercer sua profissão de militar em vários estados, Rebêlo aproveitou suas viagens para compor e homenagear Brasília e os estados do Nordeste. Daí a idéia de gravar o CD - De Brasília ao Nordeste - Viajando no Forró. Excelente. Quem é amante de um bom forró pé-de-serra com certeza viajará nas dez faixas que compõem o CD, basta acessar grupolabaredadeforro.calabashmusic.com

sábado, 8 de setembro de 2007

O elefantinho

Aos domingos, no final da tarde, os sinos da igreja repicavam convocando os fiéis para a missa, celebrada no sotaque germânico de frei Caetano. Arranchados à porta do templo, de cuias na mão, um punhado de mendigos à espera de misericórdia, e às famílias que aos poucos iam chegando, pediam esmolas em nome de Deus. 
Terminado o culto, a meninada descia para a praça e, à vontade, numa euforia incansável, brincava de pega-pega contornando o “Cuscuz do Major”. A fonte luminosa, ao som de música clássica, jorrava água numa coreografia sincronizada, lembrando um balé. Os pombos pontilhavam o chão do logradouro em busca do alimento, e em cíclicas revoadas retornavam para o alto da igreja, lá onde moram os sinos. 
No centro da praça, impávida, a estátua do homem que fez história, e que devido aos seus feitos, ficou conhecido como “O Marechal de Ferro”.
Comendo pipocas ao lado do garoto Decinho, Seu Elpídio, com habitual paciência, explicava ao filho atento a importância do herói reverenciado. “Floriano Peixoto, dizia o pai de cabeleira grisalha, foi quem consolidou a República no Brasil”.Alagoano de Ipioca”. “Motivo de orgulho para todos nós”, concluía. 
O local atraía vendedores ambulantes que ofereciam suas variadas guloseimas. Picolé, rolete, confeitos e para abrandar a insaciável sede, o irresistível caldo de cana. Decinho, invariavelmente, comia bananolas. Tamanha a sua predileção por esse tipo de doce, que lhe valeu o apelido de “Decinho Bananola”. 
Certo dia, numa dessas brincadeiras no parque, seu amigo Horacinho, conhecido pela alcunha de “peralta”, o deixou fascinado quando lhe assegurou criar no quintal de casa um filhote de elefante que seu pai, que era marchante, havia adquirido de um fazendeiro. 
Aquela afirmação lhe tirou o sono, sobretudo quando o amigo lhe convidou para brincar com o animal. Para tanto, impôs três condições: pagamento de um valor simbólico em dinheiro para ajudar nas despesas com a ração, sigilo absoluto e que no dia previamente marcado, fosse até lá sozinho para não assustar o bichinho de tromba. 
Devorado pela ansiedade da espera que o fazia roer as unhas, foi difícil manter-se calado, mas agüentou firme temendo quebrar o acordo.Afinal, chegou o grande dia. Acordou cedo e saiu tão apressado que nem escovou os dentes. 
Depois de violar o cofrinho e pegar o dinheirinho que havia economizado, partiu desenfreado à casa do amigo para realizar o sonho. Ao vê-lo bater à porta, saltitante, Peralta, que já o esperava, apressou-se em lhe cortar o barato, esfriando a alegria que Decinho trazia estampada no rosto, dizendo-lhe lacônico: “Não é possível, Bananola”, meu pai vendeu o bichinho ao dono do circo. Lívido com o impacto da notícia, foi dominado por um acesso de raiva que o fez atirar sem direção definida, as moedas que trazia na algibeira. Em seguida, cobriu o rosto com as mãos trêmulas e desatou um choro profuso, vertendo lágrimas aos borbotões sob o olhar triunfante e o riso sarcástico do amigo zombeteiro que continuava, sem remorsos, a torturá-lo: “os homens do circo vieram pegar ele ontem. 
Mas não tem nada não; ainda tem um jeito de você conhecer ele”. E esclareceu que o circo, para onde fora levado o elefantinho, fazia uma curta temporada na cidade e que, com apenas um quilo de jornal, ganhava-se uma entrada para o camarote. 
Peralta, além de mentiroso era acostumado a praticar toda espécie de travessuras. Pular os muros dos quintais alheios para furtar frutas, era uma delas. Ao contrário de Bananola, menino ingênuo e compenetrado, cujo passatempo preferido era realizar cirurgias em catengas, rasgando-lhes o ventre com uma gilete, convicto de que no futuro seria médico. 
Desejando abrandar a angústia que lhe corroia o peito, decidiu ir olhar o elefantinho no picadeiro onde, segundo Peralta, o animal ia dar espetáculo. Mas uma coisa instigou a curiosidade de Bananola que não se conteve e, antes de ir embora, perguntou: “Horacinho, para que o circo quer tanto jornal?” 
Era o que Peralta esperava para prolongar o engodo: “É para limpar o cu do elefante, otário”. 
E às gargalhadas fechou a janela, deixando Bananola só e ludibriado, que se acocorou na calçada e voltou a chorar, sentindo vergonha do ridículo de mais uma galhofa. 
Desde então, passou a ser alvo de constantes pilhérias. Todos, ao vê-lo, caçoavam perguntando-lhe se ainda queria ver o elefantinho. 
Visivelmente indefeso diante de tanta mangação, limitava-se a fechar a cara ligeiramente dentuça e de óculos, como se nela crescesse uma sisuda tromba. 

O Autor Adelmo Marques Luz, é cambonense. Nascido no Cambona, filho de Manoel e Helena Marques Luz, durante sua adolescência, teve em sua companhia, amigos inesquecíveis: Beto, Alder Flores, Nah, Vavá, Pinduca, Zé Maria etc, com quem aprontou poucas e boas, entre êles o amigo Bananola, que virou personagem de seu conto o Elefantinho. Edson Bezerra, o Bananola, hoje acima dos quarenta de idade, é um personagem bastante conhecido, não só no meio universitário, por ser professor de Sociologia e Antropologia, como também entre os artistas, compõe e canta, é o criador do famoso texto MANIFESTO SURURU.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Cambona, o bairro.


Situado entre a Praça dos Martírios e o bairro de Bom Parto, o Cambona era passagem obrigatória para quem desejasse se dirigir ao bairro de Bebedouro, que na década de 50 possuía o status -“bairro de elite”, visto que alí residiam às mais tradicionais famílias alagoanas. A Praça dos Martírios, principal área de lazer dos cambonenses, foi à época um dos recantos mais frequentados nos festejos momescos; além de servir para o Corso, que era que o desfile de carros de passeio, lotados de moças e rapazes, interagindo com o povo, na guerra de talco, serpentina e lança d'água, recebia os blocos carnavalescos mais famosos da época, tais como: Cavaleiro Negro, Mascara Preta e o inesquecível Bloco do Major Bonifácio da Silveira - As Caboclinhas, que fazia a rota Bebedouro - Praça dos Martírios. Bebedouro, hoje é visto como um bairro dormitório por não existir um comércio sustentável, entretanto, ainda se mantém vivo, graças à existência da Igreja do Bom Comselho, do Mercado Público Municipal, da Estação Ferroviária, do Colégio Bom Conselho e de duas Casas de Saúde: José Lopes e Ulisses Pernambucano.
Já a Praça Floriano Peixoto ou dos Martírios como é conhecida, era bastante arborizada e muito bem freqüentada, pois vivia outra realidade. Frontal a Rua do Comércio, circundada por prédios históricos: Rádio Difusora de Alagoas, hoje transformada em Museu Fundação Pierre Chalita, preservando a estrutura arquitetônica original; pela Caixa Econômica Federal, construída no terreno onde funcionou a primeira Faculdade de Economia da Alagoas, finalmente o Edifício do Conde e o majestoso Palácio Floriano Peixoto. Próximo ao Cambona, precisamente na Rua do Sol, situava-se o Grupo Escolar Fernandes Lima, onde a grande maioria dos cambonenses aprenderam as primeiras letras; já em direção ao Mercado Público, tinhamos duas vertentes, na primeira passávamos pelo Colégio São José, cuja diretora e proprietária Dona Laura Dantas e sua irmã, famosas pela ética e disciplina no mister de ensinar e na outra passávamos pelo Diocesano, mais conhecido como Colégio Marista, hoje ocupado pela Secretaria de Agricultura.
Também participavam dos ensinamentos aos cambonenses, as professoras (es): Salviana Gomes dos Santos, que teve como aluno o Mestre Deodato; Guiomar de Gouveia Bezerra; os professores Sebastião Granjeiro, Cajueiro e Coitinho Leite, este famoso pela palmatória usada para quem errasse a tabuada e pelo castigo do milho. Não esqueçendo o lado cultural, a grande mestra do piano Professora Georgina, que com maestria ensinou os primeiros acordes aos alunos: Marcelo Santos, nosso querido Botinha, sua irmã Mércia e ao Chico Elpídio. Outra fonte de prazer desfrutada por todos, era vivida no Clube do Trabalhador - SESI, onde eram disputados torneios de futebol, tendo como representante o Cambonense, primeiro e segundo quadros. Foi nesse habitat que os cambonenses foram criados, sentindo hoje muita saudade dos bons tempos vividos.
A convivência com os mais velhos, deixou para os mais novos, a marca do respeito e da decência, valores incontestáveis para um futuro promissor. O Cambona permanece vivo nos encontros realizados aos sábados e nas festas realizadas entre amigos, como por exemplo, o Pernil do Nah, sempre na última sexta feira do ano e principalmente no bate bola semanal, quando juntos renovamos a amizade e principalmente a vida.
Viva o Cambona e os Cambonenses.

Curiosidade- segundo Aurélio Buarque, Cambona, significa mudança rápida das velas dos barcos ou do rumo na direção das velas; reviravolta; cambalhota.