quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Quando o pai torna-se desnecessário


O bom pai é aquele que vai se tornando desnecessário com o passar do tempo.
Meus filhos, o que está escrito acima parece estranho, mas não é.
Agora que vocês estão na era dos vinte anos, começaram a dar vôos-solo, estão chegando a hora de iniciar um processo de reprimir de vez o impulso natural paterno de querer colocar a cria debaixo das asas e proteger de todos os erros, tristezas e perigos.
Quando começo a esmorecer na luta para controlar vocês, penso: - será que fiz ou estou fazendo o trabalho direito? Se fiz, e acho que sim, tenho que me tornar desnecessário.
Antes que pensem diferente, devo explicar o que significa isso, ser desnecessário é não deixar que o amor incondicional de PAI, que sempre existirá, provoque vício ou dependência em vocês como uma droga, a ponto de não conseguirem ser autônomos, confiantes, independentes e prontos para traçar o seu rumo, fazer suas escolhas, superar suas frustrações e cometer os próprios erros também. A cada nova fase, uma nova perda e um novo sonho, para os dois lados, eu e vocês, porque o amor é um processo de libertação permanente e esse vínculo não para de se transformar ao longo da vida, até o dia em que vocês se tornarem adultos, constituírem a própria família e assim recomeçar o ciclo. O que vocês precisam é de ter a certeza de que estamos aqui firmes, na concordância ou na divergência, no sucesso ou no fracasso, com o peito aberto para o abraço apertado e o conforto nas horas difíceis. Esse é o maior desafio e principal missão.
Ao aprendermos a ser desnecessários nos transformaremos em Porto Seguro para quando vocês decidirem atracar.

O texto QUANDO O PAI TORNA-SE DESNECESSÁRIO, de autoria do ambientalista Alder Flores, cambonense de raiz, serve de reflexão a todos nós que temos filhos adolescentes e que passam por momentos de turbulência. A nossa preocupação é diária, pricipalmente com o constante crescimento da violência no País e em particular em nossa Alagoas, entretanto, em sua conclusão destaca o autor: Ao aprendermos a ser desnecessários nos tranformarmos em "porto seguro" para quando decidirem atracar, um belo exemplo e uma permanente prova de amor, que só os pais com certeza sentem.
Alder Flores, natural de Maceió, cambonense da raiz é Consultor e Advogado Ambientalista.
Personagens da foto: Eufrásio Pinto Torres, Chico Elpídio, Alder Flores, Josenal Fragoso e Roberto Menezes.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Reencontrando inesquecíveis amigos


Foi com muita alegria que recebi no dia 08 deste mês, um email do Fernando Dantas - Naninha, velho amigo e de muita importância na minha juventude. Com êle participei de momentos inesquecíveis ao lado de Geraldo Érico, José Maria e Fausto. A foto ao lado demonstra a família Cambonense reunida em desses inúmeros sábados. Repasso aos amigos leitores o texto de Fernando, que traduz em relação a todos os Cambonenses, um enorme sentimento.
Caro Chico
Existem determinados momentos em nossa vida em que somente a intuição divina, como num lance de alerta, é capaz de nos mostrar ainda à tempo, fatos isolados, os quais ao serem avaliados em sua freqüência e agrupados, nos impelem para uma autocrítica de nossa atuação em relação a um das mais sublimes legados do gênero humano que é a AMIZADE.
De domingo até hoje, em situações de características totalmente diferentes, tive oportunidade de rever e conversar com pessoas as quais não via há vários meses e até anos, apesar de estarmos na mesma cidade. Não que fossem pessoas comuns, de um ou outro ambiente de trabalho, mas pessoas que tiveram uma participação marcante em minha vida, numa época em que o transcorrer da adolescência e inicio da vida de adulto, ainda não sobrecarregava de responsabilidades e compromissos como o dia a dia atual.
Encontrei-me com o Fausto e Maria, com a Carmem e com o Zé Leite no domingo.
Na segunda feira estive com o Pedrinho e com o Guido, em plena Praça dos Martírios durante quase uma hora estivemos relembrando todos os que conviveram conosco ali naqueles bancos e no casarão do Velho Educandário São José, que lamentavelmente hoje dá lugar ao espelhado palácio.
Hoje, quem me ligou à tarde foi o Jose Maria e, do mesmo modo como na conversa que tive com os demais companheiros, você foi lembrado.
Agora à noite, ao pesquisar para um trabalho sobre minha mãe, Laura Dantas, eis que me deparo com dados históricos sobre o Bairro Bom Parto, a Cambona, o Cambonense e por ai, cheguei ao Blog do Chico Elpidio. Minha surpresa maior e a razão deste meu relato, foi que, ao tentar comentar lhe parabenizando pela idéia e pelo bom gosto dos artigos ali inseridos, descobri que a matéria já havia sido publicada desde outubro de 2007, sendo o blog atualizado freqüentemente.
Na realidade, caro amigo, durante todo esse tempo estive afastado do ambiente amigo do Cambonense, assoberbado com compromissos de trabalho que muitas vezes me tomam até os fins de semana. Entretanto, estes fatos servem de alerta para que o trabalho venha a ofuscar um dos bens mais preciosos da vida e que possamos em breve poder desfrutar com todo o grupo de momentos de descontração como nos velhos tempos. 
Fernando Dantas, é engenheiro civil, hoje responde por um importante cargo na Secretaria de Saúde do Estado de Alagoas.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

A musa do tarado

Lúcia, nos seus incompletos dezesseis anos, possuía uma engenhosa beleza que acabara de desabrochar, saudável e viçosa como uma flor matinal. Cabelos escuros e em queda livre feito as cascatas; os olhos de jabuticaba e a pele morena lembrando as rolinhas caldo de feijão. Busto farto e os lábios carnudos que mostravam, ao menor sorriso, uma fileira de dentes alvos como coco. Esbelta igual às garças e dona de um aformoseado corpo de dançarina, Lúcia exibia leveza no andar e harmonia nos movimentos; suas salientes nádegas rebolavam como uma inquietante maré, despertando atenção à primeira vista. Cabocla oriunda do sertão, de onde veio para a capital ainda criança concluir os estudos, logo os galanteadores do bairro lhe batizaram como "Miss Lúcia". Desconhecendo o apelido que lhe era atribuído, sequer desconfiava das taras verbais que lhe dedicavam os rapazes, em descontraídas rodinhas de bate - papos na praça. Nessas ocasiões a beldade era predileção nos apimentados comentários: - Continua linda! Os peitinhos duros que nem bico de canoa. Ai se ela quisesse fazer amor comigo! Começava a beijá-la pelo pé da cama... Não havia limite na imaginação daquela turma de frajolas que enxergavam em Lúcia a razão das suas mais variadas fantasias, muitas vezes extravasadas no banheiro, em mágicos e solitários enleios. Audaciosa no uso de roupas curtas, a rapariga endoidava até mesmo os mais contidos. Impossível não reparar nos seus atributos; irresistível não desejar seus predicados.
Um desses rapazes, morador das cercanias, conhecido pela alcunha de Fábio Tara, debruçava-se regularmente no postigo de casa para esperar a passagem da admirável transeunte. Era itinerário obrigatório de Lúcia rumo ao colégio, cruzar à porta de Fábio que em vigília espreitava a caça feito um gavião faminto. "Batia o ponto" todos os dias. "Admirar o que é belo não é pecado", justificava-se. Certo dia, Miss Lúcia apontou na esquina trajando ordinariamente o uniforme colegial, a juba molhada e ao vento, exalando um cheiro de asseio recente. Há algum tempo que Fábio planejara a realização de uma audaciosa aventura, e aquele fora o dia escolhido. Quando Lúcia cruzou a calçada, Fábio provocou uma conversa aparentemente casta, mas no íntimo, cheia de falsas amabilidades, a fim de ganhar o tempo necessário para executar o seu intento. Guiado pelo espírito atrevido, o impostor fez uso da retórica como parte da estratégia. Impossibilitada de perceber os movimentos de Fábio, que se protegia por trás do para-peito da janela, deixando apenas o tronco desnudo, Lúcia demorou-se por alguns minutos à mercê dos desígnos daquele lobo travestido de cordeiro, que já havia aberto a braguilha. Do seu posto de observação privilegiado, ao tempo que devorava Lúcia com os olhos sequioso e vermelhos, denunciando a "lombra", prosseguia numa rítimica bolinação no pénis e latejante:
- Aonde você vai, Lucinha?
Fitando a garota como uma serpente que magnetiza a caça, vítima do bote iminente.
- Oxê, Fábio, não vê que estou indo ao colégio?
Para mantê-la servil e à disposição dos seus caprichos, continuou procrastinando com patéticas indagações:
- Vai estudar é?
Demonstrando impaciência e falta de interesse na conversa fiada, Lúcia foi breve, dizendo-lhe que estava atrasadíssima para a prova de matemática, e que capengava na matéria. Aproximava-se o término do ano letivo, férias à vista, mas para livrar-se do desconforto de uma "segunda época", Lúcia admitiu necessitar de nota sete na disciplina. A luz do sol era plena àquela hora e o calor contribuía para excitar o onanista:
- " Ma-te-má-ti-ca é? Sete?" "Ma-te-má-ti-ca?".
Apegou-se a essas palavras como um retardado, realçando-lhes a intonação das sílabas, á medida que se aproximava do orgasmo:
-"Ma-te-má-ti-ca é? "Ma-te-má-ti-ca ...?".
E acelerou como um dínamo os movimentos do braço rumo ao prazer, sacudido por uma ondulação lasciva que fazia palpitar seu corpo suando em bicas. De repente, dominado pela volúpia, quebrou o sigilo num espasmo gutural de boi zebu, confessando com estardalhaço a industriosa safadeza:
-" gozando!" gozando!"
E revirando os olhos, amparando-se para não cair, sujou o canto da parede com seu sémen onde costumava deixar vestígios da reiterada prática, cometida contra outras vítimas. Ostentava a imundice como troféu aos amigos que duvidassem do atrevimento. Só depois do fato consumado Lúcia percebeu indignada a artimanha. Pálida e impulsionada pelo susto, fugiu lépida como uma lebre do predador de faces afogueadas que, após saciar a luxúria, sossegou como uma fera que mata a fome na abundância de um banquete. Á noite, numa expansibilidade cínica e folgazã, foi à praça arrotar o resultado da impudicícia, narrando repetidas vezes e com riqueza de detalhes, o acontecido:
- A princesinha ficou imóvel na minha frente, cantando na mão feito curió manso. E mandei bronca na "rua da Palma número cinco". Foi uma bronha que me fez jorrar uma xícara de gala!"

Conto de Adelmo Afonso de Melo Marques Luz.