sábado, 31 de dezembro de 2011

ALVOROÇO


Tornara-se habitual vê-lo passar nas manhãs ensolaradas de domingo - sob o olhar reprovador dos pais de família - rumo à praia do Castelinho, na Avenida da Paz, num passo descansado, deliciando-se com uma suculenta fatia de melancia, seguido por Rex, seu cão amigo. Resumia-se seu vestuário a uma curtíssima tanga. À mostra uma excêntrica tatuagem no ombro e o corpo esguio, talhado pela prática do esporte e besuntado com óleo de amêndoas. Sua reputação no bairro não era das melhores; seu espírito inquieto e trocista fez com que Tião caísse no descrédito, embora fosse para o inconformismo de muitos, um aplicado acadêmico do curso de medicina. 
  Morávamos próximo um do outro, na Rua General Hermes, bairro do Cambona, mas não éramos amigos. Havia entre nós uma diferença na idade de quase uma década. Possuidor de um espírito anarquista, Tião pregava abertamente suas idéias incendiárias e obstinadas pelo tumulto, e seu maior prazer era conturbar o sossego público. 
 Certo dia deu causa, sem medir as conseqüências, a uma “atividade lúdica” que por pouco não terminou em tragédia. Na companhia de sua patota, regalou-se de cervejas no Bar Caninha e rumou para o conjunto de três caixas d’água na Ladeira do Mirante, no bairro do Farol, para dar início a uma de suas insólitas patuscadas. O desafio era saltar de uma caixa d’água à outra, que distam alguns metros entre si, medindo cada uma cerca de trinta metros de altura. Galgaram uma escada estreita e de ferro, em forma de caracol, até chegaram ofegantes ao topo de uma das estações elevatórias, onde o grupo deparou-se com a beleza de um céu indescritível. Acomodaram-se deitados para recuperar a falta de fôlego devido à escalada. 
  O silêncio adotado enquanto fumavam liamba adquiriu um ar solene, permitindo que todos, deslumbrados, observassem o esplendor do firmamento naquela noite suntuosa. Em estado de êxtase, viam-se diante de um vitral natural, pontilhado de estrelas, expressão de uma obra de arte cujo autor é o mais laborioso dos arquitetos. 
  Lá do alto podia-se avistar uma panorâmica privilegiada do cinturão d’água que circunda o litoral sul de Maceió. De um lado, o mar, com seu infinito horizonte iluminado pela incidência de uma lua cheia e, de outro, as águas turvas da lagoa Mundaú. Aquele recanto era ideal para a prática do amor e das libações alcoólicas do grupo, a contar com a conivência do vigia daquele espaço público que aceitava como pagamento do suborno, uma garrafa de cachaça. 
  Tião deu início, então, à brincadeira: “Araruta, araruta, quem não saltar para a outra torre, é filho da puta”. E zás, pulou, no que foi seguido pelos demais. Ninguém ousou ficar de fora, exceto as garotas, a quem incumbiram de pedir proteção a Deus para que todos terminassem ilesos. Não se tem notícia de alguém que tenha despencado lá de cima. Exceto um que, em outra oportunidade, num gesto solitário e isolado, tentou o suicídio. Foi o garoto Fred. Mas neste caso emblemático, operou-se um milagre: Fred não morreu, mas traz encravado no corpo um aleijão (manca de uma perna) que o destino lhe impôs para o resto da vida. Após ser reprovado no colégio, o pai resolveu puni-lo, matriculando-o num internato da Bahia. Inconformado com a desproporcionalidade da sentença e com a aproximação da data de sua partida, o menino saiu cedo de casa, decidido a ir para o outro mundo. Foi num fatídico domingo, à tardinha, durante a missa rezada pelo cônego Hélio, na igreja de Santa Terezinha: “Perdoai-vos uns aos outros assim como eu vos tenho perdoado...” A queda foi amortecida pelo lixo amontoado no entorno das torres, o que foi suficiente para lhe salvar a vida. O incidente surpreendeu a todos, sobretudo os pais que, cheios de culpa, trataram logo de revogar o veredicto. Passado o susto e certificados de que Fred não corria risco de vida, os amigos lhe puseram a alcunha de “duro na queda”, que perdura até hoje. 
 Ao descer da torre completamente chapado, o grupo dissolveu-se, mas Tião dirigiu-se à praça para por em prática um plano diabólico, elaborado na véspera. Comemorava-se o dia do Senhor Bom Jesus. Os sinos repicavam em metálicas badaladas, convocando os fieis para murmurarem rezas na igreja dos Martírios. Terminada a missa, o povo descia ordeiro para a festa, onde estava armado o parque de diversão à disposição da criançada, que via na roda-gigante o melhor entretenimento. Tudo estava agitado; o povo afluía em todas as direções, numa precipitação de insetos em torno de uma luz, excitados com a iminência de um temporal. Gambiarras repletas de lâmpadas coloridas enfeitavam as frondosas árvores que circundavam a praça, dando um toque especial à decoração. O foguetório era intenso, fazendo com que os meninos corressem à cata das tabocas dos foguetes que retornavam fumegantes das alturas. A filarmônica “Carlos Gomes” animava o festejo tocando marchas patrióticas, e o pastoril, representado nas cores azul e encarnado, embalava agradáveis melodias na voz macia de graciosas pastorinhas. Os locutores Pedro Teixeira e Luis de Barros estimulavam o público a contribuir com dinheiro para os cordões de sua preferência. 
Tião, que era um especialista na elaboração de planos engenhosos e mirabolantes, já se encontrava nas imediações. Tomou todas as precauções para que dele não suspeitassem. A primeira etapa do empreendimento consistia em provocar um apagão que interrompesse o fornecimento de energia elétrica. De posse de uma longa vara, cutucou na taboca de um poste e o logradouro ficou às escuras. Beneficiando-se do breu que encobria a festa, Tião aproximou-se sorrateiro, tão de leve que parecia uma sombra. Segurava numa das mãos um saco de estopa onde carregava um gato assustadíssimo com os rumores da festa. O felino trazia amarrado à cauda um pedaço de barbante, e na outra extremidade do cordão, um buscapé, feito por encomenda ao Zé da Pólvora, conhecido fogueteiro da Ponta Grossa. Acocorou-se, retirou do invólucro o animal e ateou fogo no artifício, arremessando-os em direção à festa. Fustigado pela pirotecnia do artefato, que cuspia centelhas como um esmeril, o gato ziguezagueava por entre as canelas do povo, feito uma miríade de vaga-lumes. Ouvia-se a respiração colossal do povo errante, que dispersava atordoado e aos tropeços, enquanto as crianças desgarradas dos pais choravam em meio ao pânico. O prejuízo foi enorme para os vendedores ambulantes, que nada puderam fazer para conter a força indomável da massa doida e em fuga, a deitar por terra suas iguarias. Pouco tempo foi suficiente para desfazer o que fora planejado com muita antecedência. Tião embolava às gargalhadas com o redemoinho a que deu causa. Acabou com a festa, mas fez a sua. O que antes era uma reunião alegre e descontraída, num dia santificado e de júbilo, transformou-se, de uma hora para a outra, numa praça de guerra, na qual o gaiato se saiu como o único triunfante, insensível ao pavor que incutiu àquela gente. 
Tempos depois, admitiu para os mais chegados sua autoria na azáfama, mas, segundo ele, apenas no intuito de promover uma despretensiosa balbúrdia, jamais com o propósito de machucar deliberadamente que quer que fosse. 
Adelmo Afonso de Melo Marques Luz 
Adelmo Pombão, carinhosamente chamado por seus amigos  mais próximos, é visto por muitos como um dos maiores contistas desse estado, meu irmão, o sociólogo Edson Bezerra, não se cansa de dizer ser o melhor. Nesse blogger vários de seus contos estão postados, pra ler basta acessá-los.

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