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FRAMENTOS DA MEMÓRIA DE UM TEMPO - GRUPO TERRA

RAÍZES, “UM HINO À SUBVERSÃO”
Sexta Parte

De todas as classes artísticas, a dos músicos foi provavelmente, a mais visada e atormentada durante o Regime Militar. Episódios como o da censura sem tréguas às canções de Chico Buarque e os dois exílios de Caetano Veloso e Gilberto Gil, são icônicos no que se refere às perseguições amargadas por artistas brasileiros.
Por aqui, certamente, o fato mais expressivo envolveu o III Festival Universitário de Música e uma composição de Chico Elpídio e Eliezer Setton, então membros do Grupo Terra. 
Raízes virou notícia nacional quando, em 1983, foi o estopim de uma acirrada discussão envolvendo os conselheiros Pompeu de Souza, representante da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e Antônio de Morais, do Conselho federal de Entorpecentes (CONFEN), ambos integrantes do Conselho Superior de Censura (CSC) em Brasília.
A obra de Elpídio e Eliezer foi uma das doze músicas selecionadas no festival, que havia acontecido um ano antes em Alagoas. Todas estavam na pauta daquele 25 de fevereiro, sendo julgadas para a liberação. Juntas, iriam compor o disco produto do festival. A polêmica foi notícia em vários jornais do País, a exemplo do Jornal do Brasil, Folha de são Paulo e A Tarde. “O que chamou a atenção dos jornalistas foi o debate acalorado em torno da música e o fato do Conselheiro da ABI, que estava defendendo a liberação das composições, passar mal e precisar ser socorrido por problemas cardíacos”, lembrou o Eliezer Setton.

“O clima dessa reunião foi bastante tenso a ponto de o representante da ABI. Pompeu de Souza, depois de uma discussão com o Conselheiro Antônio de Morais, do Confem, em torno da música Raízes, de Francisco Elpídio e Eliezer Setton, ter de se retirar para atendimento do serviço médico do Senado”, publicou no dia seguinte à sessão o caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo. “O representante do Conselho Federal de Entorpecentes propôs a interdição da música(...) alegando que ela era um hino a subversão”, publicou o Jornal do Brasil.

Já de acordo com o jornal A Tarde, da Bahia, Morais defendeu a manutenção da censura por acreditar que a canção poderia “incitar a juventude contra o regime. “Ele disse querer que aconteça um novo 1964, que “coisas como essa venham provocar um novo golpe e perturbar a abertura.” Segundo o periódico, Pompeu de Souza não resistiu depois de já ter se emocionado ao defender a liberação de uma música de Sérgio Malandro, Vou fazer ginástica. “O representante da ABI votou pela liberação de Raízes e se retirou.”
Segundo a Ilustrada, Pompeu de Souza antes de sair, “observou que o CSC não poderia vetar uma música como Raízes quando o País todo está cantando livremente a composição de Geraldo Vandré, Pra não dizer que não falei de flores.”
Mesmo após tanta contenda, o curioso é que ainda não seria desta vez que Raízes seria liberada. Naquele dia, “das dez músicas em pauta, apenas canto do chão, A matança do boi e Sem remédio e sem doutor (todas do Festival Universitário de Alagoas) e vem fazer ginástica (Sérgio Malandro) foram liberadas. A mais polêmica, Raízes, teve decisão adiada por pedido de vistas pelo representante dos cineastas Geraldo Sobral,” divulgou A Tarde.

O que os membros do Conselho Superior de Censura (CSC) não sabiam é que, secretamente o diretório central dos estudantes da Universidade Federal de Alagoas (DCE – UFAL), responsável pela execução do III Festival Universitário de Música, já havia conseguido a gravação e prensagens dos LPs no estúdio Rozemblit, em Recife.

“Enquanto aguardávamos a decisão do CSC, com muito jeito, conseguimos convencer a Rozemblit a adiantar a prensagem dos discos com o compromisso de só distribuí-los após a liberação da censura, sob pena de prejudicar a empresa. Com os mil discos nas mãos e temendo a sua apreensão, montamos uma verdadeira operação de guerra para transportá-los para Maceió e escondê-los sob o mais absoluto segredo. De tempos em tempos, por segurança, havia uma mudança de esconderijo, e novamente se organizava sigilosamente o transporte dos discos”, falou Edberto Ticianeli, em seu blog ticianeli.blogspot.com.br.

Segundo ele, na época presidente do DCE-UFAL, esse disco é o único LP produzido no Brasil por uma entidade estudantil.” Apenas o Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE), lançou em 1962, um compacto com quatro músicas.”

(O Jornal I, Maceió 20 de outubro de 2012, sábado.)


Raízes

Entrelaço o passado esquecido
Entre o laço do presente recebido
Só não passo adiante
Os passos que eu caminhei
Escolhi me exilar, num mundo só meu, só
Ora volto, pra rever o chão em que nasci,
Oro e volto, pra encontrar a paz que aqui perdi
Cambaleante oscilante, silente, jamais.
Vou de novo gritar, me encontro outra vez na ação.
Repisando o rastro impostamente escondido
Revivendo os fatos que tornaram-me um banido
Começando tudo de onde parei
Sem temer reprisar, a cena do livre opinar
Volto amplamente
Em geral quase irrestrito
Sem deixar que pelo dito
Fique o não dito
Solidário aos que ainda aqui não estão
Volto sim, voto não.
Não sei a quem cabe o perdão.

Como marca deste evento, foi gravado um LP, produzido pelo DCE-UFAL, ficando na memória de todos, que viveram aquele momento único em Alagoas:

Direção de Paulo Pedrosa;
Direção Artística - José Gomes Brandão;
Assistente de Direção – Paulo Pedrosa;
Técnico de Gravação – Jailson Romão;
Mixagem - José G Brandão, Chico Elpídio e Jailson Romão;
Desenho e Arte da Capa – Ênio Lins.

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